30/10/2011

Essa Marta Medeiros é mesmo uma inspiradora!

A massacrante felicidade dos outros**
 Há no ar um certo queixume sem razões muito claras.
 Converso com mulheres que estão entre os 40 e 60 anos, todas com profissão,
 marido, filhos, saúde, e, ainda assim, elas trazem dentro delas um
 não-sei-o-quê perturbador, algo que as incomoda, mesmo estando tudo bem.
 De onde vem isso?
 Anos atrás, a cantora Marina Lima compôs com o seu irmão, o poeta Antonio
 Cícero, uma música que dizia: 'Eu espero/ acontecimentos/ só que quando
 anoitece/ é festa no outro apartamento'.
 Passei minha adolescência com a mesma sensação de que algo muito animado
 estava acontecendo em algum lugar para o qual eu não tinha convite.
 É uma das características da juventude: considerar-se deslocado e impedido
 de ser feliz como os outros são - ou aparentam ser.
 Só que chega uma hora em que é preciso deixar de ficar tão ligada na grama
 do vizinho...
 As festas em outros apartamentos são fruto da nossa imaginação, que é
 infectada por falsos holofotes, falsos sorrisos e falsas notícias.
 Os notáveis alardeiam muito suas vitórias, mas falam pouco das suas
 angústias, revelam pouco suas aflições, não dão bandeira das suas
 fraquezas... Então, fica parecendo que todos estão comemorando grandes
 paixões e fortunas, quando, na verdade, a festa lá fora não está tão animada
 assim!
 Ao amadurecer, descobrimos que a grama do vizinho não é mais verde
 coisíssima nenhuma.
 Estamos todos no mesmo barco, com motivos pra dançar pela sala e também
 motivos pra se refugiar no escuro, alternadamente. Só que os motivos pra se
 refugiar no escuro raramente são divulgados.
 Prá consumo externo, todos são belos, sexy, lúcidos, íntegros, ricos,
 sedutores, enfim, campeões em tudo!
Fernando Pessoa também já se sentiu abafado pela perfeição alheia - e olha
 que na época em que ele escreveu estes versos não havia esta overdose de
 revistas que há hoje, vendendo um mundo de faz-de-conta: 'Nesta era de exaltação de celebridades - reais e inventadas - fica difícil mesmo achar
 que a vida da gente tem graça.' Mas tem.
 Paz interior, amigos leais, nossas músicas, livros, fantasias, desilusões e
 recomeços, tudo isso vale ser incluído na nossa biografia..
Ou será que é tão divertido passar dois dias na Ilha de Caras fotografando
 junto a todos os produtos dos patrocinadores?
 Compensa passar a vida comendo alface para ter o corpo que a profissão de
 modelo exige?
 Será tão gratificante ter um paparazzo na sua cola cada vez que você sai de
 casa?
Estarão mesmo todos realizando um milhão de coisas interessantes enquanto só
 você está sentada no sofá pintando as unhas do pé?
 Favor não confundir uma vida sensacional com uma vida sensacionalista.
 *As melhores festas acontecem dentro do nosso próprio apartamento...
 *(Martha Medeiros) *

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